22.11.13

Sobre a novela e o ódio




Alguns dias atrás, na novela AMOR à Vida da globo, revelaram o segredo do personagem Felix, assisti ao episódio com o coração disparado. Atiraram um caminhão de pedras no vilão. Tento entender por que na novela não existem pessoas “reais”. Eu sei, é uma ficção. Eu sei também que são muitas as mentiras, sei que a vida real não é como aparece lá, mas o que mais me intriga é que na novela não apareçam (pelo menos não em papel de destaque) pessoas PLURAIS, de sentimentos e condutas contraditórias como todo mundo, só existem pessoas únicas, que são duas: ou deuses ou diabos.
Felix cometeu um pecado/um crime, e a partir desse momento tornou-se um rato/um monstro. Sua família aterrorizou-se e, logo, tocou o terror. Preciso explicar que não procuro aqui justificar ou minimizar o erro de Felix, e sim por em debate o perigo do dualismo BEM e MAL.
“BARBÁRIE”. “Tem coisa na vida que não tem volta”. “Estou horrorizada comigo mesma por ter criado você”, mas é o Felix quem está sendo julgado, sozinho. Quão terrível é então a sua mãe se se sente horrorizada consigo mesma, mas quem paga não é ela? Na verdade ela não se sente assim, são palavras de efeito. Assim como Felix se desculpa dizendo que agiu sem pensar, está agindo sem pensar a sua mãe e o resto da sua família. Explodem-se emoções na cena, mas ninguém PENSA, ninguém pensa.
O vilão, a heroína, e também o (de)coro dos júris, uma tragédia grega diária como entretenimento...
Percebo que a novela se quer parecer neutra: defende gays e pastores, mas não tem neutralidade ao tratar de comportamentos humanos. O que se deve fazer... O que não se faz... Quais são os pecados prescritos? Felix, infantilizado, denunciou-se vítima, contou das suas dores, dos seus problemas. Eu o vi criminoso, mas vítima também. Ninguém mais viu. NÃO HÁ AMOR que aguente.
Agora, após a peripécia, o vilão age como um idiota, tão inteligente até então, ele se torna exageradamente estúpido. Não esqueçamos que Felix é um personagem criado por uma pessoa real. Se Felix não dimensiona o que fez, se se comporta como um louco, isso faz parte da criação. Qual a intenção de um autor que cria um personagem insano, mas que é julgado como se tivesse pleno controle de suas faculdades mentais? Seria denunciar a ignorância com a qual lidamos com pessoas psiquicamente doentes? Não acredito. Com quais intenções o autor desenha Felix ora louco, ora vil? Sinto que com a pior das intenções: determinar quem é bom e quem é mal.
A novela quer nos induzir a odiar alguns e a reverenciar outros. A novela quer nos induzir a odiar. Há muito ÓDIO na novela. Felix odiou sua irmã e cometeu um crime terrível, jogou sua sobrinha recém nascida na caçamba de lixo. Agora todos odeiam Felix, mas não são criminosos. Ódio é permitido e incentivado, e foi isso que disparou meu coração. Podemos odiar criminosos, assim como podíamos odiar negros, assim como pode-se odiar gays, assim como odeia-se marginais.
A política que permite aos bons odiarem os ruins é a mesma política que matou Sandro do Nascimento, do ônibus 174, na frente e com o apoio de quase todo o país. Os criminosos são dignos do ódio dos justos, para poucos Felix, para muitos Sandros do Brasil.
A frase mais legal que ouvi em 2013: a novela presta um “desserviço” à sociedade. Desligue o ódio, façamos, vamos amar!







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